Por que sentimos vontades de comer certos alimentos?

Nós sabemos que o corpo costuma nos enviar alguns sinais de acordo com as nossas necessidades. O ato de bocejar é automaticamente associado à vontade de dormir, pois o corpo procura oxigenar e “despertar” o cérebro. E a barriga roncando normalmente é sinal de fome. Mas nem sempre os sinais são tão fáceis de decifrar ou tão diretos assim.

Acredita-se que a deficiência de certos nutrientes pode levar a diferentes sintomas do corpo, como a vontade de comer alimentos específicos e às vezes até estranhos. Comer gelo, por exemplo, é uma vontade normalmente relacionada com a falta de ferro, principalmente por vegetarianos e mulheres grávidas. Isso porque ajuda a aliviar um dos sintomas da anemia, que é a inflamação na boca.

E o desejo de comer chocolate também pode ser um sinal. O alimento é rico em magnésio e este mineral tem seu nível diminuído durante o ciclo menstrual. Na tentativa de repor ou estimular a sua produção, o corpo pede por um pouquinho mais de chocolate. Lembre-se: é bom priorizar aqueles com, no mínimo, 70% de cacau, que têm mais magnésio e menos açúcar.

Mesmo as bactérias do nosso intestino, que compõem a nossa microbiota, podem enviar alguns sinais para o cérebro sugerindo a ingestão de alguns alimentos. Nestes casos, elas tentam nos influenciar a comer o que elas querem, de acordo com as suas necessidades nutricionistas.

Vale ressaltar que não são os desejos, por si só, que irão diagnosticar qualquer tipo de deficiência. Eles são sinais importantes, mas quem deve dizer o que está em falta é sempre um especialista. Assim como não é possível afirmar que toda e qualquer vontade de comer alguma coisa está relacionada à falta de algum nutriente.

Alguns desejos podem também ser explicados por uma questão comportamental e cultural. Estímulos ao nosso redor estão sempre enviando sinais, que muitas vezes são interpretados como necessidades. Você pode se sentar para assistir a um filme ou série e sentir que precisa de uma pipoca, ou terminar de almoçar e correr para tomar um cafezinho. Muitas vezes acostumamos nossos corpos a ter essa “recompensa” ou resposta que são associadas ao contexto.

Desejo de grávida?

Nas gestantes, especificamente, pode acontecer o que é conhecido como picamalácia. “Este termo é utilizado para caracterizar alterações alimentares como a ingestão persistente de substâncias inadequadas com pequeno ou nenhum valor nutritivo”, conta a nutricionista Doutora Carolina Pimentel.

“Pode ocorrer também a vontade de ingerir substâncias comestíveis, mas não em sua forma habitual, como, por exemplo, a ingestão de gelo. Ou ainda de substâncias não alimentares, como cabelo, pedra, cascalho, sabonete” completa a Doutora.

Alguns estudos indicam que a deficiência de nutrientes como o ferro e o zinco seria a responsável por alterações nas enzimas que regulam o apetite. “As evidências científicas até o momento sugerem que a depleção das reservas de ferro pode ser a origem da picamalácia, um transtorno reconhecido como um dos sinais característicos da anemia, tendo sido demonstrado que a suplementação com ferro diminui o hábito de picamalácia”, comenta a Doutora Carolina.

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Fontes:

Healthline

Ministério da Saúde

BBC

SAUNDERS, C.;   PADILHA, P. DE C.; LÍBERA, B. D.;  NOGUEIRA, J. L.;  DE OLIVEIRA, L. M.; ASTULLA, A. Picamalácia: epidemiologia e associação com complicações da gravidez. Rev Bras Ginecol Obstet.; 31(9):440-6, 2009.

AYETA, A. C.; CUNHA, A. C. B. DA.; HEIDELMANN, S. P.; SAUNDERS, C. Fatores nutricionais e psicológicos associados com a ocorrência de picamalácia em gestantes. Rev Bras Ginecol Obstet.; 37(12):571-7, 2015.